Economia

A conta da festa: seis shows da Expoacre custaram R$ 6,45 milhões — quase o valor investido em esgoto no Acre em cinco anos

Contratos de atrações nacionais reacendem debate sobre prioridades públicas em um estado que ainda enfrenta graves problemas de saneamento.

A conta da festa: seis shows da Expoacre custaram R$ 6,45 milhões — quase o valor investido em esgoto no Acre em cinco anos

Os gastos com grandes atrações da Expoacre 2026 voltaram a colocar no centro do debate uma questão sensível no Acre: a diferença entre investimentos em eventos de grande visibilidade e recursos destinados a problemas estruturais enfrentados pela população.

Seis atrações nacionais contratadas para a feira somaram aproximadamente R$ 6,45 milhões.

Entre os artistas estão Leonardo, Ana Castela, Wesley Safadão, Nattanzinho Lima, Padre Fábio de Melo e a banda Som & Louvor.

Os valores divulgados foram:

Leonardo e Ana Castela: R$ 2,55 milhões;

Wesley Safadão: R$ 1,8 milhão;

Nattanzinho Lima: R$ 1,3 milhão;

Padre Fábio de Melo: R$ 500 mil;

Som & Louvor: R$ 300 mil.

Somados, os contratos chegam aos R$ 6,45 milhões.

Comparação com o esgoto chama atenção

O valor ganha outra dimensão quando comparado aos investimentos realizados pelo Acre em esgotamento sanitário.

Levantamento do Instituto Trata Brasil aponta que, entre 2020 e 2024, o estado investiu aproximadamente R$ 7,33 milhões especificamente em esgoto.

Isso significa que os R$ 6,45 milhões destinados aos seis shows equivalem a aproximadamente 88% de tudo o que foi aplicado em esgotamento sanitário durante cinco anos.

A diferença entre os dois valores é de apenas cerca de R$ 880 mil.

É justamente essa comparação que ganhou repercussão nas redes sociais.

Atenção: saneamento total é maior

Há, porém, uma correção importante para evitar uma comparação equivocada.

Os R$ 7,33 milhões não representam todo o investimento do Acre em saneamento básico.

No período de 2020 a 2024, o estado investiu cerca de R$ 65,83 milhões no setor como um todo.

Desse total, aproximadamente R$ 57 milhões foram destinados ao abastecimento de água e R$ 7,33 milhões ao esgotamento sanitário.

Portanto, a comparação correta é entre os R$ 6,45 milhões dos shows e os R$ 7,33 milhões investidos em esgoto.

Problema atinge grande parte da população

O debate ganha força diante dos indicadores do estado.

Estudos recentes apontam que uma parcela muito elevada da população acreana ainda vive sem acesso adequado à rede de coleta de esgoto.

Além do impacto direto na qualidade de vida, a falta de infraestrutura sanitária também está ligada a problemas ambientais, contaminação de rios e igarapés e aumento do risco de doenças.

O Acre também aparece entre os estados brasileiros com menor nível de investimento por habitante na área de saneamento.

Expoacre também movimenta a economia

A comparação, entretanto, precisa considerar outro lado.

A Expoacre não é apenas um evento de entretenimento.

A feira reúne produtores rurais, empresários, instituições financeiras, agricultura familiar, indústria, comércio e prestadores de serviços.

Em edições anteriores, o governo estadual divulgou movimentações de centenas de milhões de reais em negócios durante a feira.

Isso demonstra que o evento possui relevância econômica para o Acre.

É importante observar, porém, que movimentação financeira em negócios não significa arrecadação direta para os cofres públicos.

Financiamentos, vendas, negociações empresariais e contratos realizados durante a feira fazem parte desse indicador.

Festa ou infraestrutura?

Também não significa que, caso os shows fossem cancelados, todo o dinheiro seria automaticamente destinado ao saneamento.

São despesas, políticas públicas e planejamentos orçamentários diferentes.

Governos também podem investir em cultura, turismo, lazer e eventos capazes de movimentar a economia.

O ponto central da discussão é outro:

diante das necessidades estruturais do Acre, qual deve ser o equilíbrio entre grandes eventos e investimentos permanentes em serviços essenciais?

Os números ajudam a dimensionar o debate.

De um lado, R$ 6,45 milhões em seis atrações nacionais.

Do outro, R$ 7,33 milhões investidos em esgotamento sanitário durante cinco anos.

A comparação não prova irregularidade e também não significa que os recursos tenham a mesma origem orçamentária.

Mas revela uma diferença de prioridades que merece ser discutida pela sociedade.

No fim, a pergunta permanece:

quanto o Acre deve investir em grandes eventos e quanto precisa direcionar para problemas que afetam diariamente a vida da população?

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