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Charges de Biratan Porto registram o cotidiano de Belém nos últimos anos da ditadura

Tese defendida na UFPA analisa cerca de 2.500 trabalhos publicados entre 1978 e 1985 e identifica uma leitura crítica da cidade e do regime militar.

Charges de Biratan Porto registram o cotidiano de Belém nos últimos anos da ditadura

As charges de Biratan Porto registraram problemas do cotidiano de Belém nos últimos anos da ditadura militar, entre 1978 e 1985. Nesse período, o cartunista produziu cerca de 2.500 trabalhos sobre temas como insegurança pública, atendimento precário na saúde, conservação das ruas e alta do custo de vida.

A produção é analisada na tese “Correndo o risco: Belém do Pará na charge de Biratan Porto no ocaso da ditadura (1978-1985)”, do jornalista e cartunista Walter Pinto de Oliveira. O trabalho foi defendido no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (PPGHist), do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará (UFPA), sob orientação do professor Aldrin Moura de Figueiredo.

Com ferramentas da História Social da Arte, Walter examinou charges do período, especialmente as produzidas por Biratan, para compreender a cidade durante os sete últimos anos do governo militar. Conforme os dados da pesquisa, os desenhos ofereciam aos leitores uma interpretação diferente das informações oficiais publicadas no noticiário da imprensa alinhada ao regime.

### Uma cidade além do noticiário

Nas páginas de A Província do Pará, Biratan abordou questões que atravessavam a rotina da população. Além dos problemas de saúde, infraestrutura urbana, segurança e custo de vida, o cartunista tratou do adensamento das áreas de baixadas.

Segundo o pesquisador, as charges também registraram o fluxo migratório relacionado aos grandes projetos desenvolvimentistas e os problemas sociais e econômicos decorrentes desse movimento. Walter define Biratan como um “cronista gráfico” do período conhecido como abertura política.

Embora a abertura indicasse um abrandamento do regime, o autor ressalta que o autoritarismo continuava presente. Entre os acontecimentos daquele contexto estavam explosões de bombas em bancas que vendiam jornais alternativos e a permanência de políticas públicas de exclusão dos segmentos mais vulneráveis.

Por acompanharem os acontecimentos enquanto eles ocorriam, os desenhos são tratados na tese como fontes primárias para a pesquisa histórica. O uso desse material, porém, exige análise crítica, porque as charges expressam a visão e a subjetividade do artista.

Na avaliação apresentada por Walter, as obras não eram desvinculadas da realidade: partiam de fatos, acontecimentos e notícias publicadas no jornal. Biratan, no entanto, fazia uma leitura crítica desse noticiário, muitas vezes em desacordo com a linha editorial do veículo.

### Crítica em um jornal governista

A atuação de Biratan em A Província do Pará é apontada como um dos aspectos particulares dessa trajetória. Mesmo trabalhando em um jornal que apoiava o regime militar, o cartunista encontrou espaço para questionar a ditadura e seus efeitos sobre Belém.

Walter relaciona essa abertura à necessidade de conquistar leitores. Em 1973, o jornal passou por uma reforma gráfica associada a um projeto de modernização que ampliou o espaço para a charge. A ocupação efetiva desse espaço teria ocorrido depois que o diretor-superintendente Roberto Jares Martins reconheceu a qualidade do trabalho de Biratan.

O cartunista já havia publicado em O Pasquim, no Correio Braziliense e na própria A Província. Em 1978, último ano do governo do general Ernesto Geisel, foi contratado pelo jornal para produzir charges diariamente. Para Walter, esse momento marcou a profissionalização do humor gráfico contemporâneo no Pará.

Na tese, o pesquisador apresenta Biratan como “o primeiro cartunista contemporâneo a atuar profissionalmente na imprensa do Pará”. A partir da contratação, o artista desenvolveu uma produção extensa, sem limitar suas interpretações ao posicionamento editorial do veículo.

Biratan Porto, também músico paraense, morreu aos 71 anos em novembro de 2021. De acordo com os dados da pauta, deixou uma obra associada ao registro do cotidiano e da história de Belém.

### Do silêncio à retomada do humor

A pesquisa também recupera os efeitos do golpe de 1964 sobre o humor gráfico no Pará. Conforme Walter, o fechamento do Jornal do Dia, então único jornal de oposição, interrompeu essa atividade no estado durante a década de 1960.

A retomada ocorreu a partir de 1973, quando uma geração de cartunistas passou a publicar em A Província do Pará, principalmente no encarte Bandeira 3. Hamilton Bandeira, Osmar Pinheiro, Emmanuel Nassar e Luiz Pinto estavam entre os integrantes desse grupo, inspirado no semanário alternativo O Pasquim, criado no Rio de Janeiro em 1969.

Walter avalia que a atividade ainda tinha caráter amador no Pará, o que contribuiu para que alguns artistas seguissem outros caminhos. Segundo o relato incluído na pesquisa, ele e Biratan, leitores de O Pasquim, começaram a publicar no jornal em período posterior, na coluna Jornaleco, de Raymundo Mário Sobral. Depois, outros cartunistas também passaram a participar.

A investigação identificou dois grupos atuantes no cenário paraense dos anos 1970. Segundo o pesquisador, os integrantes eram autodidatas e não se conheciam inicialmente.

### Salões aproximaram artistas

O I Salão Paraense de Desenho de Humor foi apresentado como a primeira iniciativa de organização desses artistas. Biratan idealizou o evento a partir da experiência adquirida no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

Conforme o levantamento da tese, foram realizados quatro salões paraenses entre 1970 e 1980. Esses encontros contribuíram para aproximar os artistas e organizar a produção de humor gráfico no estado.

Ao reunir essa trajetória, a pesquisa propõe compreender a charge como uma forma de acesso a acontecimentos que não são esgotados pelo noticiário. Para Walter, esses registros precisam ser analisados em diálogo com outras áreas do conhecimento.

Na interpretação apresentada pelo pesquisador, a charge funciona como uma leitura “a contrapelo” do jornal: ressignifica o fato e questiona os limites impostos pelas linhas editoriais. As obras publicadas entre 1978 e 1985, nessa perspectiva, oferecem uma leitura crítica dos efeitos da política sobre Belém e preservam uma interpretação artística da cidade para as gerações atuais e futuras.

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